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October 3, 2013

Ovos vegetais já estão sendo “botados”

Novo substituto para ovos que pode beneficiar milhões de galinhas

Humane Society International

  • Josh Tetrick. Jordan Viola/Hampton Creek

Josh Tetrick, presidente da empresa norte-americana Hampton Creek, deseja mudar o mundo com um pó verde claro. Chamado de Beyond Eggs (‘Além dos Ovos’), a cor do pó vem de uma variedade de ervilha—um ingrediente identificado pelos cientistas e chefes de cozinha da empresa após eles terem testado 287 plantas. Na composição, há também óleo de girassol e de canola, além de outros ingredientes naturais. Uma das formulações pode ser utilizada para substituir ovos em produtos assados, como biscoitos. Outra em molhos como maionese.

A indústria alimentícia usa ovos processados – nas formas líquida, congelada ou em pó – para fabricar esses produtos. Uma significativa proporção dos ovos produzida globalmente é usada para atender essa demanda. A maioria desses ovos é oriunda de galinhas confinadas nas chamadas granjas-fábrica, onde as aves passam suas vidas inteiras em gaiolas em bateria—tão pequenas e superlotadas que elas não podem sequer abrir suas asas. Tetrick pretende conquistar uma grande parte do mercado de ovos processados com um produto que não é apenas mais humanitário, como também melhor para o meio ambiente, 20% mais barato e mais saudável—pois é livre de colesterol e não carrega nenhum dos riscos de segurança alimentar geralmente presentes nos ovos produzidos em granjas-fábrica.

"No futuro, Tetrick espera desenvolver um produto líquido que possa ser usado para fazer ovos mexidos, bem como expandir as atividades da empresa internacionalmente, em países como o Brasil, a China e a Nigéria.”

Este ano, duas grandes empresas alimentícias americanas começarão a usar o Beyond Eggs. No futuro, Tetrick espera desenvolver um produto líquido que possa ser usado para fazer ovos mexidos, bem como expandir as atividades da empresa internacionalmente, em países como o Brasil, a China e a Nigéria.

Com sede em São Francisco, a Hampton Creek já possui milhares de dólares investidos em fundos de capital de risco e conta com o apoio de Bill Gates, que a identificou como uma das principais empresas que moldarão o futuro da alimentação. A Beyond Eggs tem o potencial de poupar centenas de milhares de galinhas do confinamento em gaiolas em bateria, afirmou Josh Balk, diretor de políticas corporativas de animais de produção da Humane Society of the United States (HSUS), um velho amigo de Tetrick. “A Hampton Creek é um ótimo exemplo de como uma economia humanitária pode ajudar os animais,” disse Balk, que ajudou a fundar a empresa.  “Para eliminar as granjas-fábrica, as pessoas precisam continuar incorporando mais alimentos de origem vegetal em suas dietas”. A Humane Society também está presente no Brasil por meio do seu braço internacional, a Humane Society International (HSI), uma organização que em conjunto com suas parceiras forma um dos maiores grupos de proteção animal do mundo.

“A Hampton Creek já possui milhares de dólares investidos em fundos de capital de risco e conta com o apoio de Bill Gates, que a identificou como uma das principais empresas que moldarão o futuro da alimentação.”

Nesta entrevista com a escritora Karen E. Lange, publicada na atual edição da revista All Animals, Tetrick conta de onde veio sua inspiração para o Beyond Eggs e o que ele planeja para o futuro.

De que forma sua preocupação com os animais te levou a desenvolver um produto vegetal que substitui os ovos?

Cerca de 1,1 trilhões de ovos são botados todos os anos globalmente. A maior parte deles vem de locais que não ficaríamos muito orgulhosos de ver, locais que são terrivelmente cruéis, terrivelmente insustentáveis e muito ruins para a nossa saúde. E eu apenas pensei que teria que haver uma forma de retirar completamente os animais da produção convencional de ovos e fazer algo que é melhor e mais barato.

Você poderia descrever a típica granja de produção comercial de ovos?

É um galpão industrial escuro, com fileiras e mais fileiras de gaiolas empilhadas uma em cima das outras, alinhadas às paredes. Cheira a amônia. E cada gaiola tem de sete a dez aves espremidas umas contra as outras. E você pode ver todo o milho e a soja que são usados para alimentá-las. Elas têm que beber água em gotas de bebedouros. E elas são esquecidas lá por dois anos.

É um abuso extremo, além do imaginável. Se achamos ou não que essas aves são iguais ao nosso cachorro ou gato, a um tigre de bengala ou a um elefante asiático, realmente não importa para mim. O que importa é que cada uma delas é um ser vivo.

Qual é a relação do Josh Balk da Humane Society com a Hampton Creek?

Ele é a real inspiração por trás de tudo que acontece todos os dias aqui. Nós nos conhecemos desde os 16 anos de idade. Ele era um arremessador que costumava me tirar do campo de baseball e nós sempre fomos melhores amigos desde então.

Eu fui criado em Birmingham, no estado de Alabama, e de diversas formas eu era completamente cego quanto às questões ambientais e éticas que permeiam nosso sistema alimentar. E o Josh, mesmo quando tinha apenas 18 ou 19 anos, sempre me educou e me encorajou a comer de uma forma mais humanitária, abrindo meus olhos para como nós podemos realmente mudar o mundo por meio da nossa alimentação.

Como o Beyond Eggs se compara aos ovos em termos nutritivos?

Eu diria que é mais saudável. Você está evitando problemas de segurança alimentar, colesterol e os alérgenos que os ovos têm. Além disso, o Beyond Eggs provê o mesmo tipo de proteína, mesmo que ninguém coma um biscoito pela proteína.

A maioria das pessoas sentiria a diferença do gosto do Beyond Eggs? Ou seja, o gosto é o mesmo dos ovos em pó ou frescos?

Geralmente as pessoas sentem a diferença e preferem o gosto do Beyond Eggs. O gosto dele é um pouco mais evidente no produto. Então você sente mais o gosto do chocolate no biscoito, por exemplo. E maioria das pessoas também prefere o gosto da nossa maionese. Não é uma maionese assustadora, feita em laboratório. É apenas uma maionese muito boa, com preço competitivo e sem colesterol.

Você vê os produtos da Hampton Creek substituindo a maior parte dos ovos produzidos em gaiolas em bateria?

Todos eles. Nós queremos diminuir em 30% o número de galinhas poedeiras em granjas-fábrica e gaiolas em bateria nos EUA nos próximos cinco anos. Nós queremos acabar com o sofrimento animal da indústria dos ovos.

Quais são as metas de longo prazo da empresa?

Nossas expectativas para a Hampton Creek são de que em sete anos, quando as pessoas pensarem em comida, nós seremos uma das empresas reconhecidas por evoluir a maneira como produzimos alimentos, por estarmos produzindo milhares de quilos e centenas de produtos alimentícios que respeitam os animais e o meio ambiente. Nós estaremos fora dos EUA. Queremos ser a empresa mais valiosa do mundo.

Você vê o Beyong Eggs tendo alguma contribuição na alimentação dos países em desenvolvimento?

Definitivamente. A população mundial vai explodir para cerca de 9,5 bilhões de pessoas até 2050. As pessoas terão mais renda e buscarão fontes de proteína mais baratas. Se nós podemos fornecer uma fonte que é melhor para o meio ambiente e melhor para a saúde humana, isso é muito animador. Nós realmente queremos um mundo onde os seres humanos possam prosperar sem danificar o meio ambiente. Um mundo onde os seres humanos possam progredir de forma mais sustentável e criar valores sólidos que todos nós possamos compartilhar. Nós esperamos que todas as pessoas, e não só as que já estão preocupadas com a criação de um mundo melhor, juntem-se a nós neste movimento.

Fatos:

  • No Brasil, aproximadamente 90% das galinhas poedeiras, mais de 100 milhões de aves, são confinadas em gaiolas em bateria tão pequenas que elas são impedidas de realizar a maioria de seus comportamentos naturais mais importantes, como andar, empoleirar-se, tomar banhos de areia, botar ovos em ninhos ou até mesmo abrir suas asas completamente. Elas sofrem de estresse psicológico bem como de diversos traumas físicos, incluindo fraqueza e quebra óssea, perda de penas e doenças. Quando confinadas em gaiolas em bateria, cada ave tem um espaço menor do que uma folha de papel ofício para passar toda sua vida.
  • As gaiolas foram banidas na Suíça em 1992, e as gaiolas em bateria convencionais são proibidas em toda a União Europeia desde 2012. O Reino do Butão também proibiu o confinamento de galinhas poedeiras em gaiolas em 2012. Nos EUA, os estados da Califórnia e Michigan aprovaram leis restringindo o confinamento de galinhas poedeiras. Uma proibição nacional também está sendo considerada na Índia.

Reedição do texto publicado na revista All Animals (“Best Laid Plans”, Setembro/Outubro de 2013), de editoria da Humane Society of the United States. Disponível em inglês no site humanesociety.org/allanimals.

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